
Na sociedade portuguesa "não existe consenso nem uma visão concreta" quanto as medidas a implementar para atacar os problemas estruturais do país, para além da política de austeridade imposta pelo exterior, critica o eurodeputado Daniel Cohn-Bendit.
Em entrevista à Agência Lusa, Cohn-Bendit, figura emblemática das revoltas estudantis de Maio de 68 e actual líder da bancada verde no Parlamento Europeu, afirma que Portugal não será capaz de dar à volta a atual situação se seguir uma política que apenas preconiza a austeridade, e sem que a sua necessidade seja percebida e aceite pelos portugueses.
"Penso que não existe consenso na sociedade portuguesa quanto aos passos que devem ser tomados, nem uma visão concreta sobre que tipo de medidas para além de uma política de austeridade e de reforma. Uma política que, no fundo, defina apenas as medidas de austeridade como o objetivo não tem qualquer perspetiva de futuro", alertou.
Para Cohn-Bendit, que em várias intervenções públicas criticou a forma "hipócrita" como a Europa tem lidado com os pedidos de ajuda externa, sobretudo no caso da Grécia, a solução em Portugal passa por uma "mistura entre maior disciplina na despesa e criação de uma nova dinâmica".
Os problemas estruturais de Portugal são "naturalmente resultado de políticas erradas que foram implementadas pelos governos -no plural -- durante a última década. Mas a forte especulação tornou quase impossível que Portugal conseguisse sair da situação pelo seu próprio pé", disse o eurodeputado.
A ajuda externa "vai contribuir para estabilizar a situação [da especulação dos mercados]. Mas o grande problema, e isso vê-se no caso da Grécia, é que conseguir uma transformação de fundo é algo muito difícil de se fazer, porque também pressupõe uma aceitação por parte da sociedade. E essa aceitação não se consegue com um, dois ou três pacotes de austeridade ou com o aumento do IVA ou de outros impostos", vincou.
"É preciso criar uma nova perspetiva, uma nova dinâmica. Não vejo ou ouço, mas posso estar cego ou surdo, que na actual situação a sociedade portuguesa diga que é preciso arregaçar as mangas e percorrer esse caminho. Esta é, ao meu ver, a grande dificuldade, tanto na Grécia como em Portugal" salientou Cohn-Bendit.
O eurodeputado franco-alemão defendeu ser necessário que a União Europeia discuta "até que ponto é possível estender o prazo de pagamento da dívida, não o seu perdão, para assim permitir que as sociedades portuguesa e grega tenham uma hipótese de recuperar essa dinâmica".
Cohn-Bendit defendeu igualmente uma maior intervenção da Europa na definição das políticas económicas em países como a Grécia ou Portugal para que os investimentos sejam mais produtivos.
"Se os 27 gerirem o orçamento da UE de modo a que os investimentos necessários para impulsionar o crescimento da economia fossem estruturados ao nível europeu, isso seria importante. Seria claro necessário verificar quais os investimentos que geram postos de trabalho e se estes tem um impacto duradouro para a economia portuguesa" explicou.
Fonte: DN.PT

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