
Mercúrio mora longe e tem hábitos estranhos.
O planeta mais próximo da nossa estrela é, também, um dos mais estranhos do Sistema Solar. A sonda Messenger entrou na sua órbita para averiguar, entre outras coisas, por que motivo possui um descomunal núcleo de ferro e se as regiões polares contêm gelo.
Talvez pelas discretas dimensões, pelo aspecto que não chama demasiado a atenção ou pela dificuldade em observá-lo, Mercúrio foi sempre marginalizado pela ciência. Contudo, no passado dia 18 de Março, a sonda Messenger entrou finalmente na sua órbita, após uma viagem de sete anos e três sobrevoos prévios. Por outro lado, os astrónomos começam a admitir que fizeram muito mal em não dar mais atenção ao estrambótico planeta, cuja existência já era conhecida dos sumérios, por volta do terceiro milénio antes de Cristo.

Observemos, em primeiro lugar, as peculiaridades da sua superfície. A característica mais notável é que não há grandes diferenças geológicas entre os dois hemisférios, como acontece com os outros mundos que integram o Sistema Solar. Porém, entre as infinitas planícies de Mercúrio surgem despenhadeiros de dois quilómetros de altura e centenas de extensão. Talvez tenham aparecido há milhares de milhões de anos, enquanto o planeta arrefecia. Embora possa parecer, à primeira vista, um clone da Lua, essa semelhança não passa de uma miragem. É verdade que ambos os corpos estão crivados de crateras, quase todas com cerca de 4000 milhões de anos, mas, aos olhos da Messenger, a face de Mercúrio resplandesce de cores: foram as matérias expulsas pelos vulcões, mais do que o impactos dos meteoritos, que configuraram a sua orografia.
“A nave detectou diversas lavas e composições, assim como antigas erupções, semelhante às do monte de Santa Helena, no estado de Washington”, informa Scott L. Murchie, geólogo do Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore (Estados Unidos) e um dos cientistas responsáveis pela missão. Especialmente interessantes são algumas regiões tingidas de azul pelos astrónomos. “São compostas, provavelmente, por óxidos de titânio e ferro que as colisões entre aerólitos fizeram emergir. Outra hipótese é que sejam materiais vulcânicos mais antigos que assomam entre lavas mais jovens”, diz Murchie.
Um núcleo intrigante
Todavia, não é a superfície o aspecto mais intrigante de Mercúrio, o planeta mais próximo do astro-rei: devido à sua densidade, os investigadores pensam que possui um núcleo gigante, maioritariamente composto por ferro. Ocuparia nada menos do que três quartos do volume do planeta, e corresponderia a 60 por cento da sua massa. Na opinião de Sean Solomon, investigador-principal da Messenger, a sonda deverá averiguar, ao longo de 2011, como é na realidade esse coração. “Já sabemos que a parte exterior é líquida, como na Terrra. É isso que indicam ligeiras alterações na taxa de rotação”, indica. Por isso, constitui, a par do nosso planeta, o único mundo dentro do Sistema Solar a possuir um campo magnético global, o qual é gerado pelas correntes que fluem através desse núcleo externo. No entanto, o comportamento da magnetosfera mercuriana é de molde a enlouquecer qualquer um. Durante os sobrevoos que antecederam a sua entrada em órbita, a Messenger descobriu que ora apontava para o Norte, ora para o Sul, sem qualquer ordem aparente.
É também motivo de discussão o facto de o planeta, apesar do seu reduzido tamanho, possuir tanto metal no interior e tão pouca rocha no exterior. Uma das explicações sugere que as forças exercidas pela gravidade da nuvem de poeiras que esteve na origem de Mercúrio favoreceram a concentração de ferro por cima dos silicatos, material que compõe, por exemplo, 95% da crosta terrestre. Outros propõem que a radiação de uma nebulosa vizinha vaporizou grande parte desses silicatos, actualmente escassos, que foram depois varridos pelo vento solar. Uma terceira teoria defende a colisão com um protoplaneta do mesmo tamanho de Mercúrio, o que teria removido as suas camadas exteriores.
Gelo ao abrigo do Sol
A outra questão que excita Solomon e os seus colegas é a possibilidade de algumas crateras perto dos pólos poderem conter gelo. Os astrónomos descobriram-no em 1991, quando obtiveram, através de observações por radar, um mapa de regiões que brilhavam, semelhantes às do pólo sul marciano. Gelo tão perto do fogo? A chave para o enigma reside no facto de a rotação de Mercúrio sobre o seu eixo ser quase perpendicular à órbita em redor do Sol, pelo que os raios do astro nunca atingem as crateras polares. Além disso, a ténue atmosfera é incapaz de transportar calor até às zonas mais frias, onde teria ficado depositada água em estado sólido proveniente de cometas ou asteróides. Seja como for, outros especialistas consideram que as sugestivas imagens captadas pelo radar poderiam corresponder, na realidade, a enxofre.
A missão vai ser especialmente difícil para a sonda Messenger, pois o fundo das crateras está mergulhado numa escuridão total. “Vamos tentar procurar com o espectrómetro vestígios de hidrogénio, o ingrediente básico da água”, explica Solomon. “De passagem, vamos explorar a cauda de partículas que acompanha Mercúrio e que se extende ao longo de centenas de milhares de quilómetros na direcção oposta ao Sol. Essa exosfera é constituída por hélio, oxigénio, sódio, cálcio, potássio e, seguramente, outros componentes que a sonda irá revelar.”
Que ano espera os cientistas encarregados de acompanhar o destemido mensageiro espacial! Não é todos os dias que um astrónomo se pode dedicar ao estudo de algo tão familiar e, simultaneamente, tão desconhecido. Como define Solomon, “Mercúrio é o porco com asas da nossa família planetária”.
Fonte: Super Interessante

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