
O Complexo do Alemão, maior grupo de favelas da cidade do Rio de Janeiro e ocupado por mais de dois mil homens das Forças Armadas desde Novembro do ano passado, reviveu na noite de terça-feira e madrugada desta quarta as cenas de guerra que caracterizavam a região antes de ser ocupada.
Presumíveis traficantes de droga, que o Exército supostamente tinha expulsado do Complexo, enfrentaram as forças militares durante várias horas numa violenta batalha onde foi usada artilharia pesada de ambos os lados, como numa guerra convencional.
Os supostos traficantes chegaram a disparar com potentes metralhadoras anti-aéreas, cujas balas tracejantes cortavam a noite carioca levando pânico aos habitantes do Complexo e dos bairros circundantes. O Exército respondeu igualmente com armamento pesado, reforçou o seu efectivo com mais 100 fuzileiros navais chamados às pressas e desviou, ainda de madrugada, para o Alemão seis tanques que deveriam desfilar na manhã desta quarta-feira nas comemorações do Dia da Independência.
Segundo um porta-voz militar, o violento confronto não deixou vítimas. No entanto, um homem foi levado para um hospital da região com ferimentos provocados por estilhaços de granada, e habitantes relatam que uma adolescente de 15 anos morreu ao ser atingida por uma bala perdida. Ambas as informações continuavam nesta quarta-feira por confirmar, já que o Exército dificulta o acesso ao Complexo do Alemão até à própria polícia carioca, que só pode agir nas ruas circundantes e na área externa dos acessos.
Durante o tiroteio, os acessos às várias favelas do Complexo do Alemão foram fechados pelo Exército. Ninguém entrava ou saía e, já depois de cessarem os tiros, bloqueios militares no interior do Complexo e policiais nas áreas circundantes revistavam veículos e pessoas.
Habitantes relataram a jornalistas o terror vivido, que lembrava a época em que a região era dominada pelo tráfico de droga. Ao longo desta quarta-feira, não se registaram incidentes, mas o clima continua tenso, até pela presença maciça de militares com armamento de guerra e blindados em vários acessos e outros pontos estratégicos.
Antes do tiroteio da madrugada desta quarta-feira, uma situação inexplicável para o Exército, que controla a área há 10 meses e tem no local mais de 2000 homens, já se tinham registado confrontos entre soldados e populares. Muitos habitantes do Complexo do Alemão têm-se queixado de que o Exército trata toda a gente como criminoso, e que os soldados cometem todo o tipo de abuso durante as rondas, não respeitando nem os direitos mais elementares dos cidadãos, comummente detidos sem motivo, arrancados às vezes da própria casa à força ou espancados se não obedecem imediatamente a uma ordem.
Fonte: Correio da Manhã

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