O Banco Central Europeu vai continuar a aceitar a dívida portuguesa como colateral, mesmo no nível de lixo, ignorando os ratings das agências de notação financeira. É a resposta directa do BCE ao que tem sido entendido como um ataque das agências de notação aos países da Zona Euro. Uma decisão que surge no mesmo dia em que a instituição decidiu subir a taxa de juro de referência para 1,5%.
O conselho de governadores decidiu suspender a regra do BCE em que a partir do momento em que quatro agências de notação financeira colocassem o rating num nível de lixo deixariam de servir de garantia junto da instituição.
"Esta decisão é em certa medida uma resposta imediata" à Moody’s, afirmou o presidente do BCE, Jean-Claude Trichet.
Portugal vai manter assim aberta uma das principais portas de financiamento do País. Numa altura em que os mercados exigem juros exorbitantes ou em que simplesmente nem sequer dão dinheiro a Portugal, o Banco Central Europeu é uma almofada para a economia portuguesa.
O presidente Jean-Claude Trichet falava numa conferência de imprensa depois da reunião do conselho de governadores que decidiu subir a taxa de juro de referência em 25 pontos-base, ou seja, para 1,5%.
Depois de dois anos com o preço do dinheiro historicamente baixo, no 1%, só em 2011 o BCE já subiu por duas vezes a taxa de juro, e ficou sinalizado que poderá voltar a fazê--lo antes do final do ano. Os analistas estimam que a taxa directora possa entrar em 2012 nos 2%.
O primeiro efeito deste aumento para os 1,5% é a subida da Euribor, que a seis meses é o principal indexante do crédito à habitação. Para quem tem um empréstimo para habitação ou quer contrair crédito para comprar casa, os preços disparam. Uma família que tenha contraído um empréstimo para a compra de casa no valor de 150 mil euros, a trinta anos, com um spread de 1,5% e com um contrato indexado com a Euribor a três meses, paga actualmente uma prestação à banca de 631 euros por mês. No final do ano, esse valor poderá agravar-se em quase 40 euros por mês.
Para quem quiser pedir crédito à habitação, para além da pouca disponibilidade dos bancos para este tipo de financiamentos, há que ter ainda em conta um spread mais elevado. A Euribor a seis meses estava ontem nos 1,823%.
MADEIRA, SINTRA E PORTO COM A MOODY'S
Sintra e Porto cortaram com a Moody’s. O presidente da Câmara do Porto, Rui Rio, confirmou que não renovou o contrato por ter "uma dificuldade tremenda em trabalhar com quem não [considera] sério". Fernando Seara, de Sintra, tomou a mesma decisão por o "serviço prestado pela entidade" poder ser "prejudicial". Alberto João Jardim proibiu as agências de rating de entrar na Madeira. Em Lisboa, a vereadora das Finanças , Maria João Mendes, considerou "incompreensível a actuação da Moody’s"
"HÁ AGENDA CONTRA O EURO": José Reis, economista, lidera queixas contra as agências
CM – Porque avançaram com a queixa contra as agências?
José Reis – Uma das razões é o oligopólio das três agências, que controlam mais de 90% das notações. Pode haver posição dominante. Em segundo, há conflito de interesses, porque em duas das três empresas encontramos fundos de investimento que beneficiam com as notações. E depois usam informação privilegiada.
– A decisão do BCE é um primeiro passo para acabar com o poder destas agências?
– É um passo, não sei se grande ou pequeno, mas elementar. As agências têm o poder que lhes foi dado. Não se percebe por que não há eurobonds e não é o BCE a financiar directamente os Estados.
– Há então uma agenda do dólar contra o euro?
– Acho que existe essa agenda, sem a menor dúvida.
CONTRA AGÊNCIA EUROPEIA
O presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), Carlos Tavares, tem dúvidas sobre os efeitos práticos da constituição de uma agência de rating europeia. "Tenho dificuldade em aceitar uma agência de rating europeia. Seria criada pelos países europeus para emitir rating sobre a dívida desses países? É difícil encontrar maior conflito de interesses", explica o regulador.
O supervisor da Bolsa confirmou ainda que a CMVM foi abordada pela Procuradoria-Geral da República para prestar apoio técnico na análise da queixa apresentada por um grupo de economistas liderado por José Reis contra as agências de notação financeira.
BANCOS E LISBOA NO LIXO
A Moody’s não pára de cortar no rating em Portugal. Depois de a República ter sido atirada para o lixo pela agência de notação financeira, agora foi a vez de empresas públicas, banca, autarquias e regiões autónomas.
No Sector Empresarial do Estado, Parpública, Refer, CP e RTP passaram para o nível B1, de lixo (ver gráfico). As empresas tinham já grande dificuldade em se financiar e agora ficam com a torneira do crédito praticamente fechada.
Na banca, BES, CGD, BCP e Banif sofreram um corte de rating entre três a quatro níveis na dívida garantida pelo Estado, para reflectir o downgrade da República, estando agora num nível considerado de lixo para os mercados. Apesar de o rating destes bancos não descer – apenas o da dívida garantida pelo Estado –, a Moody’s deverá nas próximas semanas concluir a revisão dos níveis de rating dos bancos em Portugal.
Neste ciclo de cortes de rating, nem as cidades portuguesas escapam: Lisboa e Sintra viram o rating cair para o nível de lixo, tal como as regiões autónomas da Madeira e dos Açores.
Fonte: Correio da Manhã
Fonte: Correio da Manhã
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