sábado, 7 de maio de 2011

Cobaias Humanas

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Há dois anos o carioca Marcos Luís Oliveira da Costa, 33, cumpre uma rotina quase militar. Toma um comprimido a cada manhã, faz exames de sangue, urina e teste para o vírus HIV a cada mês quando também vai ao médico e, em todos os trimestres, preenche longos questionários sobre comportamentos de risco. Marcos não está tratando uma doença. Ele é uma cobaia humana. 

Como outros 349 voluntários brasileiros, o professor de história e geografia não ganha nada para testar se o Truvada, medicamento contra a infecção pelo vírus HIV, funciona bem ou provoca danos ao organismo. Ao todo, são 2.499 pessoas de seis países (Brasil, EUA, África do Sul, Tailândia, Peru e Equador) participando dessa pesquisa. O que Marcos, soronegativo, ganha com isso? Esperança de não ver mais gente passar pelo que quatro amigos passam na luta contra a Aids. “Se esse medicamento existisse há alguns anos, talvez eles não tivessem contraído o HIV. Farei o que eu puder para ajudar a prevenir essa doença”, afirma. 

Como Marcos, existem 40 mil cobaias humanas no Brasil ou, como preferem os especialistas, sujeitos de pesquisa. De aparelhos a remédios, de cosméticos a alimentos, nada é aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sem, antes, passar por eles. “Sem voluntário, não há pesquisa clínica. Ele é tão importante quanto o pesquisador”, afirma o infectologista Mauro Schechter, chefe do Laboratório de Pesquisas em Aids do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, no Rio de Janeiro, ele próprio um ex-voluntário que, nos anos 80, participou de um teste nos Estados Unidos para a criação de uma vacina contra a hepatite B. 

1 A CADA 10 MIL 

Criar uma nova droga é um processo lento, caro e trabalhoso. Um remédio como o Truvada leva, em média, 12 anos até chegar às farmácias. De cada 10 mil moléculas descobertas com potencial terapêutico, só mil chegarão à fase de investigação pré-clínica, aquela com ratos de laboratório. Dessas mil, cerca de dez serão estudadas em seres humanos e, de todas essas, apenas uma nova droga chegará ao mercado, de acordo com a Sociedade Brasileira de Profissionais de Pesquisa Clínica (SBPPC). 

A seleção de voluntários não é menos minuciosa. Paraplégico desde os 18 anos, quando sofreu um acidente de moto, o empresário Paulo Polido, hoje com 31, esperou um ano até ser aprovado num teste do Hospital das Clínicas de São Paulo. Para disputar uma das 30 vagas, ele e outros 250 candidatos foram submetidos a exames clínicos, médicos e psicológicos e avaliados segundo diferentes critérios de inclusão. “Fatores como idade, tempo de doença e tratamentos prévios, entre outros, são levados em conta”, afirma a bióloga Greyce Lousana, presidente-executiva da SBPPC. Do grupo aprovado para participar do protocolo em 2002, Paulo foi o único a notar melhora motora e recuperar sensibilidade fina a capacidade de sentir um simples algodão umedecido sobre a pele. “Pesquisa clínica não é tratamento. O resultado foi satisfatório, mas não o esperado.”

Fonte: Revista Galileu

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